Thais Campidelli de Freitas
No último final de semana passei por uma das experiências mais enriquecedoras dentre todas que já presencie.

Visitei um lar de senhoras idosas em Campinas, uma espécie de asilo por assim dizer.

Lá se encontram mulheres que não tem mais família.

Algumas porque os parentes simplesmente abriram mão da convivência outras porque todos os entes queridos já não se encontram mais aqui!

Sai de casa pensando em encontrar um lugar triste, desconfortável, pesado...

A única coisa que eu conseguia imaginar em relação a aquilo tudo que iria acontecer era que eu não sairia de lá tranquila. Aquela visita iria consumir muito do meu ânimo.

Fomos motivados a levar algo diferente e que pudesse trazer alegria para aquelas pessoas que precisam tanto de atenção e de carinho.

E assim fomos...
Descarregamos nossas doações de alimentos e materiais de limpeza.
Tudo guardado, era hora de começar a nossa bagunça organizada!

Instrumentos na mão, adereços na cabeça e a voz a ecoar alto as músicas de um passado vivo na cabeça delas todas.

No começo olhares atentos, sorrisos discretos, acanhamento e estranheza diante de toda aquela animação vinda daqueles desconhecidos.

Fomos ganhando os sorrisos e a atenção uma a uma.
Com o passar do tempo os adereços não eram mais nossos, eram delas...
As músicas não eram mais selecionadas por nós, era Dona Catharina quem puxava as marchinhas de carnaval.

E era nessa hora que enxergávamos a alegria que cada uma sentia ao fechar os olhos.
Elas cantavam de olhos fechados, com o sorriso no canto dos lábios como se pudessem se transportar para o momento em que viveram aquela música "em algum lugar do passado".

Até Dona Mercedes que não saía da cama pediu para que a enfermeira a colocasse em uma cadeira de rodas para que ela pudesse aproveitar o movimento.

E foi ao olhar para os pezinhos dela (de meias quentinhas) balançando de um lado pro outro no ritmo da música que senti, eu não estava ali por acaso.

Eu precisava daquilo, muito mais do que elas talvez precisassem do meu carinho.
É quando você fica diante dessas situações que você cresce e vê que o mundo não é se resume ao seu próprio umbigo.

Você deve e tem que fazer muito mais!
Dona Maria, fazendo trancinhas no meu cabelo

Conheci Dona Áurea, Dona Maria (que fez mil tranças no meu cabelo), Dona Therezinha (e seu sorriso solto engraçado), Dona Ednéia (com sua lucidez e simpatia no auge de seus 92 anos), e foi ali que conheci Dona Neli Oliva...

E é sobre ela que falarei daqui pra frente.

Essa história mexeu demais comigo, porque eu senti uma sinceridade tão grande nas palavras que ela pronunciou e notei um amor ainda maior pela vida.

Uma vontade de viver que encantaria qualquer um.
Os traços dela são de alguém que passou por “muitas e boas”, também não é pra menos Dona Neli tem 97 anos.
Com a ajuda de seu andador caminha de um lado para o outro naquela casa enorme.
E foi em uma dessas voltinhas que ela segurou em minha mão, sorriu e disse que aquela bagunça toda era um presente Deus.
Sua mão macia não soltou da minha por muito tempo.
E foi durante esse tempo que ela me confidenciou a maior paixão de sua vida.
As palavras.
As palavras em sua forma poética, rimada, cantada...

Dona Neli é poetisa! Possui uma centena de poesias escritas ao longo destes quase cem anos.
Logo que fiquei sabendo disso, me interessei em ler algo que ela havia escrito.
Rapidamente ela me dissera que eu não precisaria ler, pois ela declamaria seus versos pra mim.
Meus braços arrepiaram e arrepiam agora no momento em que escrevo esse texto.
Com a serenidade que a vida lhe dera Dona Neli entoou os versos de sua poesia famosa, que ganhara prêmio em um concurso cultural.

Dona Neli, poetisa, 97 anos.
Meu Brasil, por Dona Neli Oliva

Meu país é tão lindo
Uma verdadeira nação
Com sua imensa riqueza tem trabalho e produção
O esplendor da natureza que nos fala ao coração
Florestas, rios e cascatas
Enormes vales e matas com rica vegetação
Grandes campos verdejantes
Nossa riqueza ecológica, nosso grande potencial
A majestosa fauna e flora que vibra ao romper da aurora no exuberante Pantanal
Esta nação gloriosa é obra das mãos de Deus
Que tudo deu ao seu povo
E tudo foi ele quem fez
Nossa pátria querida reflete bem o seu perfil
Trazendo em sua bandeira, as belas cores do Brasil
Em seu campo de trabalho o povo luta por teu pão
E a cada dia que passa vai enriquecendo a nação
Nossa terra tem grandeza, mil encantos naturais
Em meio a tanta beleza, ao lado uma tristeza que magoa o coração
É ver parte do seu povo ainda hoje andando de pé no chão
Para sanar este mau só há uma solução
Seu povo pedir em oração que Deus governe essa nação
Feliz é o povo cujo Deus é o Senhor.

A lição que tiro disso tudo é que não temos tempo a perder. Por mais que isso pareça clichê é a mais pura verdade.

Do presente (hoje) para a idade da Dona Neli é um pulo e eu quero ter a mesma sensação que elas tiveram quando fecharam os olhos. Quero ter a certeza de que eu vivi tudo que havia pra viver! Por que é isso que faz daquele lugar um lugar feliz...

Como já dizia o poeta: "Velhinhos são crianças nascidas faz tempo".
 Quanto ao receio que eu falava no começo ele sumiu, pois quem saiu de lá com as energias renovadas fui eu! Elas me recarregaram!

Thais Campidelli de Freitas
1 Response
  1. Maurélio Says:

    Que bela visita Thaís, as pessoas devem com certeza ter-se encantado contigo, és um amor de menina,beijos.


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